
O que fazia não era, para si, o ideal. Partir o tempo em pequenas fatias e entregá-las uma a uma a diferentes mãos, que não eram palpáveis. Afinal, o que era o tempo? O que era o tempo senão um limite; um risco no chão de terra, gritando “Daqui, não!”. Ela gostaria era de poder abraçar o vento num dia e dar-se conta dos fios de cabelo brancos estações à frente, como se estivesse a desabraçá-lo depois de um segundo eternizado, depois de uma doce sensação, apenas. Queria o que fosse inteiro, sem pressa ou lentidão. Ansiava, semi-equilibrada, pelos sentidos surgindo dos poros, sempre abertos. Recusava os degraus, as filas, as seqüências. Não gostava do termo “ordem alfabética”. Nada de números crescendo ou decrescendo. A vida acontecia, constantemente, dentro dos seus olhos, como um desenho de criança, num imenso papel sem bordas, coloridos com giz. Onde os pássaros voavam baixo, o sol sorria usando uns óculos escuros e as pessoas eram maiores que as casas. Entretanto, havia o risco na terra e as mãos, estendidinhas, exigindo fatias. Ela estava aprendendo a dizer não.